II. POTÊNCIAS!



Em tempos pandêmicos onde o isolamento social se faz obrigação, induz a solidão e tudo que nos resta é adaptação, resgatamos a potência dos encontros em entrevistas onde diferentes gerações se conectam para falar sobre as suas vidas, no agora.

Ana Flor Fernandes, atualmente uma das integrantes da Mandata Quilombo, entrevista Erica Malunguinho, primeira mulher trans eleita deputada estadual em São Paulo, articuladora no campo das artes, política, uma das porta-vozes da comunidade T brasileira e irmã de fé.

Maria Clara Araújo, afrotransfeminista e futura pedagoga entrevista Sidnei Nogueira, Babalorixá e autor do livro ‘’Intolerância Religiosa’’.

Pêdra Costa, performer e antropóloga visual entrevista Susy Shock, escritora e artista trans sudaca.

Jup do Bairro, um corpo multifacetado e sem juízo entrevista Deize Tigrona, uma das matriarcas do funk nacional.

Daniel Veiga, diretor teatral e dramaturgo entrevista Léo Moreira Sá, ator e também dramaturgo.
Mark


Monstruosa
Suzy Shock


por Pêdra Costa




Nós estivemos no II Seminário Internacional Desfazendo Gênero em Salvador-Bahia em 2015. Foi ali que eu vi seu show e te conheci pessoalmente. Você também esteve numa fala junto com Indianare Alves Siqueira e Berenice Bento. Uma das frases do seu manifesto Reivindico mi derecho a ser un monstruo ¡Que otros sean lo Normal! se tornou o nome do livro de Leandro Colling “Que os outros sejam o normal: tensões entre movimento LGBT e ativismo queer” que foi lançado no mesmo evento. Me lembro muito bem e com muita felicidade por ter feito parte disso e que conseguimos, como em um canto coletivo monstruoso sudaca, fazer uma crítica ao queer do norte global e nos conhecer e andar juntas como em manada. É uma honra poder ter esse encontro contigo novamente.


Oración a la Divina Trans
Señora de lo Trans
sucia de pelo a rabo
y tan bendita…
concédeme la voluntad
de alumbrarme y alumbrar
dame fuerzas para batallar
con mi espada brillosa de ideas
con mi lumpen mariposa de amar
y la humildad de saberme diamante
de mi propio crear…
Amén
por Susy Shock


Você se denomina uma Artista Trans Sudaca. Gostaria de perguntar qual a força do termo Sudaca. Como imigrante do Sul no Norte, esse termo é usado de uma forma xenofóbica. No Brasil, não é comum assumirmos esse termo, tampouco brasileires são nominades assim no Norte Global. Seria por causa de não compartirmos a mesma raíz colonizadora e/ou da mesma língua? O que você pensa sobre isso?

S: Pra começar, agradeço o convite para essa entrevista e te envio, Pêdra, um grande abraço trava e sudaca. Sobre sua pergunta; aqui no sul, o movimento trans/travesti apropriou-se dos insultos e termos pejorativos, para se constituir através de um orgulho político, para discutir política apropriando e virando o discurso do inimigo. É um ponto de identificação, de revanche política, de se posicionar para discutir olhando por cima da humilhação na qual eles pretendem nos colocar. Sudaca vem disso, e trava, travesti… sobretudo TRAVA também é um xingamento que tem sentido de pertença, orgulho e posicionamento político. Isso acontece aqui no sul, mas escutei isso no Brasil também e em outros países, mas não em todos os que fui. Geralmente há uma dificuldade em se sair do “binário”, que é um espaço confortável. O desconforto é político. 


Como artista, me interessa fazer algumas perguntas relacionadas às artes que se cruzam com outras áreas do conhecimento. Nesse caso, gostaria de perguntar como é o seu processo de criação artística e qual a importância e potência em cruzar Arte, Ativismo e Afeto?

S: Minha construção como artista vem a partir do teatro, o teatro independente, super politizado e autogestivo. Então, meus modos de criação se bem concluem de maneira bastante pessoal, sempre tiveram uma construção coletiva, os incentivos são coletivos porque o olhar é coletivo, porque o pensamento é um pensamento que construímos coletivamente. Então, a gente acaba afirmando uma coisa que está no ar e que vamos construindo, desconstruindo, amassando, macerando, entre varies. O processo criativo depende também da área da arte, né?... a escrita talvez seja mais solitária, mas no que respeita ao teatro e à música, é um trabalho muito mais rico pois precisamos de outras mãos, de outros olhares. 




Você nos deu o direito de ser um monstro ao reivindicar a sua própria monstruosidade e isso é muito potente. Você abriu as portas para que nós, monstros, pudéssemos sê-lo também. Que monstro é esse? Você poderia falar mais sobre esse direito a ser um monstro? E o que você acha da nova geração de pessoas trans y/o kuir y/o monstruosas do Sul?

S: Fico comovida quando me encontro e conheço as juventudes “monstras” que não somente têm uma identificação com uma poética, mas que também têm uma prática no seu cotidiano muito potente, de se sair do lugar de conforto que o sistema nos impõe para pertencer. Tudo o que signifique quebrar isso é estar no “monstruoso”. Sair do binário, que é o politicamente correto, aceito, para que a heteronorma nos permita pertencer, que é um caminho falso mas confortável, que é confortável, mas falso... A instalação que as novas gerações têm, e outras tantas, do abjeto, das margens, do sujo, do não-permitido… finalmente, do mais rico, nos instala num lugar de dissidência de mandatos que são muito disciplinadores, muito dolorosos e que inclusive assassinam tudo o que não seja como eles. Por isso, é importante a reivindicação, porque não podemos permitir que eles nos deixem o medo de ser diferentes. Proclamamos a igualdade e eu gosto de falar em ser distinta e que não me matem por isso.... nem mais nem menos.


No seu canal do youtube, você tem postado vídeos nesse momento de quarentena, recitando poesias, fazendo lives, cantando etc. Você tem nos presenteado com sua arte e presença virtual. Como você tem vivido e sentido todo esse processo? Qual a sua opinião sobre o futuro?

S: É urgente voltarmos para esse modo coletivo que nos abriga de toda violência hegemônica; nós instaladas nessas margens temos nossos espaços, nossas catacumbas, nossa tribo que tem funcionado nos sustentando, nos alimentando, nos dando enormes refúgios para ser. Isso hoje está em perigo porque não estamos perto, então temos que animar-nos a desafiar esses medos instalados, novamente, para confiar em nossos modos, que são os corretos porque nos pertencem, porque assim nos cuidamos. Eu não estou negando que o vírus existe, inventado ou não; o que creio é que temos falhado, nossas democracias têm falhado porque o modo de coordenar esses cuidados, de acompanhar esses cuidados nesse momento de pandemia, são através das forças de segurança. E eu continuo me perguntando: cadê essas outras figuras sociais? cadê os feminismos aportando nossos cuidados? aí é que temos que estar fortalecendo; e se nos perdemos, voltar ao caminho; se sentimos medo, deixar de senti-lo, voltar a confiar na nossa tribo, nos nossos modos. A autogestão é a mais atacada economicamente hoje, não podemos estar nas ruas promocionando um show, vendendo um artesanato, tocando uma música, vendendo um livro. Mas, ao mesmo tempo, somos quem temos a maior fortaleza, quem vamos sair fortalecides de tudo isso porque temos ferramentas, sobretudo temos um desejo que é o que auto-gerenciamos, e isso não se negocia com nada. 


PC: O festival MARSHA tem feito um trabalho muito importante de relembrar as ancestrais trans e/ou kuir e também tem feito um trabalho de celebrar a nós que começamos antes da era “millennial” e ainda estamos aqui trabalhando. Essas duas questões são importantes e estão sendo trazidas ao centro do debate que é o ageismo ou etarismo (discriminação etária ou geracional) e a luta contra o esquecimento das ancestrais trans e/ou kuir. Através dos conhecimentos Afro e Indígenas no Brasil, uma pessoa só morre quando nos esquecemos dela. Tanya Asapansa-Johnson Walker que é a co-fundadora do New York Transgender Advocacy Group (NYTAG) escreveu nas suas redes sociais no dia 3 de junho de 2020 que “Ageism is real in the LGBTQSGL community (...) If it wasn’t for the Elders you would have no rights now.” Na Argentina e no Brasil ainda houveram ditaduras que foram terríveis contra as Travestis. Você poderia comentar sobre o etarismo e a memória contra a morte a partir da sua experiência e do seu conhecimento? 

S: Que seríamos antes de que cheguem os conquistadores… como nos chamávamos antes que eles nos nomeiem… O desafio é desandar para encontrar raízes muito profundas e muito próprias, longe da colonização. A ideia da velhice e de nos sentir travas velhas é um desafio político também. Não há política que pense na nossa comunidade trans/trava na velhice. Há um motivo óbvio, nossa média de idade de vida é de 35 anos aqui no sul, outro tanto em outros países, em geral, em todo o planeta. Vivemos jovens e morremos de formas absolutamente evitáveis se não somos assassinadas. Então, há uma ideia de nós sendo velhas com tudo o que isso significa numa sociedade onde vamos nos abraçando de geração em geração, as infâncias trans e nós como referência, e elas como novas energias. O desafio é pensarmos desde outra lógica que não seja a heteronorma, que proclama a ideia da juventude como o único elixir absoluto.︎

Tradução: Andrea Bazán




Pêdra Costa (Nova Iguaçu, 1978) é uma artista brasileira-alemã residente em Berlim. É Performer e Antropóloga Visual & Urbana, trabalhando com vídeo, música, escrita e artes visuais. Seu trabalho é contaminado pela estética da pós-pornografia e das estratégias anticoloniais.

Website: https://cargocollective.com/pedra




Susy Shock, nasceu em dezembro de 1968 na Cidade Autônoma de Buenos Aires, filha de pai pampeano e mãe tucumana. Com mais de 30 anos de atuação, canto e escrita, se autodefine: "Artista trans sudaca".

Mark


Temos de nos aquilombar novamente



Por Maria Clara Araújo



Em entrevista à Maria Clara Araújo, Pai Sidnei Nogueira fala do seu processo de escrita e da importância do aquilombamento como resistência contra a intolerância religiosa.


Maria Clara Araújo: Primeiramente, Pai Sidnei, gostaria que você compartilhasse sobre seu recente lançamento "Intolerância Religiosa", publicado pela Coleção Feminismos Plurais, coordenada pela Djamila Ribeiro. Como ocorreu o processo de escrita? Em um momento histórico-social como o atual, como você compreende a discussão que o livro propõe para a sociedade brasileira?

Pai Sidnei Nogueira: O processo de escrita sobre temas relacionados ao racismo é sempre doloroso porque configura uma forma de revisitar as próprias dores, os próprios traumas e fazer feridas ainda abertas sangrarem novamente. Todavia, é também uma forma de luta. Muito embora se trate do resultado do somatório de pesquisa histórica, diálogo com autores e autoras que têm se debruçado sobre os diversos tentáculos do racismo, colonialidade do poder, decolonialidade, e as minhas vivências como Babalorixá, eu tento, ao longo da escrita, falar ao leitor sobre um tema que não esteve presente em sua formação regular. Nesse sentido, trata-se de um grito de encruzilhada e, ao mesmo tempo, penso que me foi possível, por meio da escrita, trazer uma voz ancestral reverberando pelo seu direito de existência.
Nesse sentido, a discussão proposta pelo livro é mais que necessária. Estamos em um estágio avançado de adoecimento social coletivo. Antes doença biológica é resultado de um pré-adoecimento social do país. Tenho falado muito que, desde o golpe de 2016, estamos diante de um cenário de culto ao ódio. É preciso odiar! Odiar é preciso! Odiar, excluir, segregar, subalternizar e matar os considerados diferentes e as diferenças.
O “Intolerância Religiosa” é mais que um livro. Trata-se de um locus de provocação e fazer pensar necessário à cura.

MCA: Pensando em potências, nesse momento tenho estudado sobre pedagogias decoloniais. Frente o epistemicídio histórico imputado às epistemologias amefricanas – em termos de Lélia Gonzalez –, o que a produção insurgente de intelectuais negras e negros representa para você?

PSN: É certo que vivemos em um Estado Colonial fantasiado de uma frágil e independente Democracia. Tudo o que sabemos sobre nós, pretos e pretas, nega a nossa própria existência. Em um país formado por 56,10%, percentual de pessoas que se declaram negras no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE. Dos 209,2 milhões de habitantes do país, 19,2 milhões se assumem como pretos, enquanto 89,7 milhões se declaram pardos. Os negros – que o IBGE conceitua como a soma de pretos e pardos – são, portanto, a maioria da população. Entretanto, como reitera Sueli Carneiro (2005), não podemos nos ver nas diferentes instâncias sociais, políticas, históricas, literárias, etc. Tenho dito que o racismo é um lugar de ausências, ou seja, um não lugar para aqueles que nunca puderam existir fora da escravização. Nesse sentido, a nossa presença, falando das nossas coisas e do nosso lugar, é, sem dúvidas uma forma de luta contra o racismo estrutural. 

MCA: Muito tem sido falado sobre estarmos vivendo uma crise humanitária no Brasil. Esse fato, inclusive, antecede o Covid-19, uma vez que temos acompanhado retrocessos expressivos de direitos que são frutos de árduas lutas – sobretudo dos movimentos sociais, como o Movimento Negro, Movimento Feminista e Movimento LGBT. No livro, você fala sobre uma "ética preta". Essa ética preta é parte dos fundamentos e das práticas vividas no Candomblé, correto? Diante disso, gostaria que você nos respondesse o que o Brasil tem a aprender com a ética preta vivida sob o chão dos terreiros.

PSA: Eu tenho dito que também estas “éticas pretas” estão, em certa medida, despotencializadas pela engrenagem mais poderosa do Capitalismo que é o racismo; também por isso, elas são, na cabeça do colonizador, o maior motivo para a perseguição violenta da nossa magia negra. O conservador, dogmático e opressor, sabe que a nossa magia é expansiva e que expansão é também uma forma de negação da escravização-apequenamento-miséria impostos. Está posto que o Brasil fracassou, o Capitalismo fracassou, o Neoliberalismo fracassou e um modo de construção do mundo a partir da Europa como dogma e verdade absoluta – mão única, também fracassou. Este jeito de estar no mundo, de pensá-lo e sê-lo a partir de uma perspectiva anti-encruzilhada não funcionou e só serve ao fortalecimento das desigualdades. Uma ética preta tem como locus um encruzilhada de possibilidades, de polissemia e, sobretudo, de negação do binarismo. É o que temos a oferecer. É o que está no seio da relação de uma ética preta rito-mito-existências que temos como possibilidade de cura para a redoma e asfixia por meio da aceitação de um hermetismo que faz com que sejamos todos obrigados a respirar um único ar adoecido.

MCA: No meu texto "A transfobia é um vício branco", discorro sobre como a transfobia não pode fazer parte dos nossos quilombos. A prática de desumanizar o outro, de retirar sua condição de humano, é historicamente branca, ocidental. O Candomblé representa historicamente um espaço de sociabilidade segura para mulheres trans e travestis. No entanto, ainda ocorrem situações em que mulheres trans e travestis sofrem transfobias. Como você enxerga esse fato? E diante de sua experiência, como construir um espaço religioso que acolha e legitime a experiência de pessoas trans?

PSA: Vamos mudar isso por meio do que tenho também chamado de ebó epistemológico (Rufino, 2017). Precisamos parar de acolher e aceitar este carrego colonial em detrimento de existências múltiplas e plurais. Este carrego que nos retira do lugar de Quilombo. Temos de nos aquilombar novamente. É inaceitável que práticas colonialistas ainda se reproduzam no Candomblé e nas demais Tradições de Matriz Africana. Este olhar biologicista não nos pertence. Somos das cosmossensações. Eu costumo dizer que, se queremos um Candomblé menos embranquecido, precisamos que os escurecidos, denegridos, empretecidos voltem para o Candomblés e, se queremos um Candomblé menos transfóbico, precisamos que mulheres trans e travestis retornem para o Candomblé. Precisamos de um Candomblé menos cristão, menos patriarcal, menos binarista; precisamos de um Candomblé decolonial. O caminho mais certeiro para esta desconstrução está no fechar dos olhos e voltarmo-nos para um espaço do sentir.

MCA: Por fim, gostaria que você compartilhasse sobre seus projetos atuais, quais são os próximos passos e o que podemos esperar de Pai Sidnei no futuro

PSA: Eu acredito muito na representatividade e no ativismo virtual. Neste momento, em meio ao adoecimento social e biológico coletivo, Exu está fazendo o erro virar acerto porque pessoas que nunca tiveram voz e possibilidade de protagonismo têm se utilizado das redes sociais para a negação de um apagamento imposto. Para mim, tanto o racismo quanto a transfobia são lugares de construções de ausências. O que precisamos fazer? Desfazer estes lugares de ausências. Eu tenho alguns projetos que têm a ver com um projeto maior que é o “Nós falaremos por nós”. É preciso que falemos por nós. Não podemos permitir que o outro se aproprie também da nossa voz. Eu gostaria de levar o meu novo livro “Intolerância Religiosa” a todos que estejam abertos a romper com as amarras do colonialismo. É o que estou fazendo agora por meio do instagram @professor.sidnei, por meio de lives-programas como os “Gritos de Encruzilhada”, aos domingos das 23h. às 24h. e o “Amalá de Xangô”, às quartas-feiras, às 18h. Neste momento também, estou com dois cursos: “Ebó Epistemológico como locus de repotencialização dos saberes pretos ancestrais” e “Epistemologia e Afrossentidos dos 16 Odus principais no Jogo de Búzios nas Tradições de Matriz Africana”. Eu tenho me debruçado especialmente na negação do que tenho chamado de miséria epistemolígica imposta pelo racismo e pelo colonialismo e penso que meu próximo livro seguirá este mesmo caminho.︎



Maria Clara é transativista e assessora parlamentar da deputada Erica Malunguinho pelo PSOL/SP, formada em pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco, pesquisadora em teoria curricular com ênfase em pedagogias antirracistas e decoloniais.

Mestre e doutor em Linguística pela USP, Babalorixá, Professor de Semiótica, Língua Portuguesa, Africanidades, Coordenador e professor do 1º curso de Afroteologia em SP, tem atuado tanto em termos de pesquisa como em palestras e aulas sobre os temas: racismo, homofobia e lugar de fala, racismo religioso, semiose do Candomblé, Orixalidade, línguas africanas com destaque para a língua yorùbá, africanidades, afroteologia, a invenção da categoria semântica "negro" pelo homem branco, afrocentricidades versus eurocentrismo, colonialismo, pré e pós colonialismo e decolonialidade.



Mark


Nós somos o caminho, a verdade e a vida



Por Ana Flor Fernandes


A deputada estadual Erica Malunguinho defende a organização e a desobediência como armas ao autoritarismo em alta. 




AF: Erica, nós temos observado que o campo das artes tem viabilizado a construção de estratégias para que pessoas se organizem e reivindiquem diversas pautas que estão, mais do que nunca, latentes. Como você enxerga esse movimento?

E: Primeiro a gente não deve colocar as artes como um campo selecionado e à parte do sistema, dos dispositivos de poder e da organização social. A arte, assim como as culturas ancestrais e os povos africanos e originários nos ensinaram, faz parte da cosmovisão, está associada a política, está associada a cultura, está associada a matrimônio, está associado a medicina. Enfim, a todos os dispositivos sociais. Então a arte é fundamental pois ela faz parte da fundação da humanidade, as linguagens artísticas fazem parte da nossa capacidade de expressarmos a vida por outros caminhos, por caminhos que vão além das comunicações comuns, mas isso não a faz diferente e não a faz mais ou menos importante do que as outras. E tem outro lugar inclusive é a arte que dá o sentido à vida, porque é por meio desses caminhos que a arte navega dentro da sociedade, que se move o fator essencial da construção de subjetividades, que dizem respeito ao conhecimento sensível. Então acho que isso é fundamental.


AF: Você participou da segunda edição da MARSHA!, lembra? Para nossa coletividade, foi um momento muito importante porque travestis e pessoas trans estavam projetando suas pré-candidaturas para a disputa legislativa. Como você compreende a importância de coletivos e coletividades trans construindo esses diálogos entre arte, cultura e política?

E: É um rompimento importantíssimo as coletividades trans estarem atreladas a política, a cultura, a arte. Isso é um rompimento cognitivo, rompimento do saber, rompimento das associações, da aliteração, que a estereotipia dos nos corpos nos lugares de vulnerabilidade e subalternidade. Então nós estarmos nessa movimentação, que diz respeito a política também, é romper a ordem do conhecimento e a cognição, mostrando nossas corpas como produtoras de narrativas e de subjetividades que são para além dos estigmas criados. Nosso corpo é um corpo intelecto, isso é fundamental, isso é muito importante de frisar: são corpos intelectos, para além disso tudo que parte da afirmação das nossas identidades, eles carregam elaborações e formas de concepção do mundo que são únicas, específicas e fundamentais para a garantia de uma sociedade plural, efetivamente diversa, e consequentemente mais rica e honesta.


AF: Entender a complexidade das coisas e do mundo exige uma demanda de estudo e organização de uma certa economia de vida, concorda? Sendo assim, quais têm sido suas referências artísticas? Ou se você preferir: quais músicas, livros, pessoas, tem tocado você de alguma maneira?

E: É muito difícil falar isso, eu não tenho condições de falar porque é muito difícil falar de uma ou de outra pessoa. Eu posso dizer que tudo me apetece, tudo que esteja narrando e reescrevendo a história apresentando o corpo intelecto, apresentando verdade, me interessa. O que eu posso dizer é que todas as linguagens, literaturas diversas, músicas diversas, obras audiovisuais diversas, todas elas me interessam e eu me nutro muito delas, e não consigo dizer uma ou outra. Tenho fácil escolhas por produção da população LGBTQIA+ da comunidade preta, inclusive para desintoxicar-me do padrão ocidental, branco cêntrico, então a dica que eu dou é essa: buscar a desintoxicação ocidental por meio de narrativas que são descritas por outros corpos.


AF: O momento tem sido difícil para pessoas que são produtoras culturais no Brasil. Todavia, parece existir um esforço por parte de instituições, fundos emergenciais, coletivos culturais, para fomentar o trabalho de pessoas que estão produzindo cultura e minimizar os danos nos quais essas pessoas estão sendo submetidas, seja por parte do governo bolsonarista ou pela crise pandêmica. Qual sua opinião sobre?

E: Pra mim é muito óbvio, é diretamente proporcional que qualquer crise econômica, qualquer golpe, crise institucional no Brasil vai recair diretamente sobre a população mais vulnerável, sobre os vulnerabilizados, então pra mim é uma linha óbvia. O que eu penso sobre isso, uma vez que isso já está demarcado, já faz parte de um script determinado na lógica da exclusão, que a gente tem que se garantir e se antecipar às próximas tormentas, dessas novas avalanches coloniais.

Então o que eu tenho insistido bastante é que a nossa rede de proteção, afeto, solidariedade e econômica se fortaleça de forma substanciosa. O que eu quero dizer com isso? Quero dizer que uma sociedade civil organizada e desobediente é capaz de não sofrer abalos e não sofrer imediatamente, de sobreviver às oscilações dos regimes de poder, do sistema, então tenho insistido muito nisso: que miremos pra nossa ancestralidade, nosso passado, presente, futuro, onde estão os princípios da sustentabilidade, da auto-organização, da autogestão e criar essa rede de proteção, de circularidade econômica principalmente, na sociedade capitalista.

Se manter de pé economicamente,  sendo grupos explorados como somos, é um ato heroico e de continuidade da ruptura do próprio sistema.

AF: Por fim, gostaríamos de saber: o que Erica Malunguinho, longe de todos os holofotes e categorias, gostaria de falar para o mundo nesse momento?

E: Nós somos o caminho, a verdade e a vida. A diversidade é regra e ela é absoluta da natureza. O que tenho a dizer é que esses rios que somos, essas árvores que somos, elas não aceitarão os asfaltos nem os assoreamentos, afinal de contas as raízes brotam, atravessam, os rios transbordam, como a própria natureza age, e nós somos natureza. Vai dar certo, apesar de tudo.︎


Graduanda em pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco; Pesquisadora de gênero, sexualidade e educação; Coordenadora Regional Nordeste do Instituto Brasileiro Trans de Educação; Produtora do Colóquio Universitário de Sexualidades do Centro de Educação da UFPE - CUS CE; extensionista no Núcleo de Direitos Humanos e Contemporaneidades LGBT, NUCH; membro do Grupo de Estudos e Pesquisa Foucault e Educação - UFPE,
membro do Coletivo MARSHA!
Erica Malunguinho, 39 anos, nascida e criada em Pernambuco, além de educadora e artista plástica, em 2018 tornou-se a primeira mulher transexual eleita deputada estadual de São Paulo. Erica é mestra em estética e história da arte pela Universidade de São Paulo (USP) e criadora da Aparelha Luzia, um espaço para fomentar produções artísticas e intelectuais na capital paulista.



Mark


Entre amigas, com Deize Tigrona


Por Jup do Bairro



Deize, numa conversa íntima com a sua parceira na música ‘’PELO AMOR DE DEIZE’’ de Jup do Bairro, fala abertamente sobre saúde mental, depressão, humildade e perspectiva de vida.


Foto: Vivi Bacco.


Jup do Bairro: Em suas composições você traz uma variedade muito grande de assuntos sempre de forma divertida e enérgica. Como funciona seus processos criativos e composições musicais?

Deize Tigrona: Realmente as minhas composições possuem uma variedade diversa, mas eu tento ser total irônica. O meu processo de composição é de momento, a maioria das vezes eu componho mentalmente em cima da moto em movimento, as vezes é num show que vem umas ideias. Agora eu montei um estúdio básico em casa onde entro lá e sai algumas, por exemplo ‘’VAGABUNDO’’ foi um processo de composição dentro do estúdio. Hoje a minha ideia é juntar amigos e compor não só pra mim, pois hoje eu vejo que é necessário participar de algumas composições de amigos que me convidam.

Tempos atrás eu fazia umas letras que eram de um bonde feminino para outro, então era a revolução do grito das mulheres faveladas no mundo funk.

Com o tempo eu vi que é necessário a mulherada compor letras para os homens machistas também. Vocês precisam ouvir ‘’Miniatura de Lulu’’ (risos).


JB:  Em um momento da sua vida, a depressão foi um marco presente em sua história e você falou abertamente sobre isso. Qual importância falarmos sobre a saúde mental principalmente preta e marginal?

DT: A Depressão me pegou por um tempo e foi intenso. Na época não sabia o que eu tinha. Em 2008 eu voltava de uma turnê de 2 meses na Europa, mas antes tive um problema sério na família. Fui ao médico, fiz vários exames e nenhum diagnóstico, mas eu me sentia revirada do avesso, a cabeça não respeitava o corpo. Quando o médico falou que eu estava com depressão eu só sabia gritar, achava que depressão era pra rico e eu não tinha grana, apesar das viagens para Europa. Naquela época o funk não me dava grana e sim fama. Hoje eu falo abertamente sobre a depressão porque eu sei que na favela as pessoas ainda tem a mesma reação que eu tive em não acreditar que pobre pode ter depressão, mas essa é uma doença que atinge a qualquer um.

JB. Quando escrevi “PELO AMOR DE DEIZE” preferi te mostrar quando finalizada. Uma homenagem em vida para você que tanto admiro e me inspiro. Como você recebe essa canção?

DT: Eu juro que fiquei surpresa com a composição. Nem tenho palavras pra essa parceria, só sei que quero mais. Eu adoro rock e por isso fiquei sem chão quando você me apresentou a letra e o beat em rock. Eu amei demais!

JB: Deize Tigrona já viajou o mundo, provou do underground ao mainstream e sempre prevalecendo sua história e humildade. Qual foi seu exercício pra não se deslumbrar com esses acessos e lugares inimagináveis?

DT: Já passei por muita coisa na vida. Já morei na rua, comecei a trabalhar aos 12 anos e minha família sempre foi humilde.

Quando comecei a cantar funk também não foi fácil. Eu trabalhava como empregada doméstica e no final de semana voltava à Cidade de Deus pra cantar, falava aos porteiros que iria gravar um CD e eles não acreditavam, diziam ser caro. Eu não parei de compor, não parei de cantar, hoje eu não tenho grana mas estou muito feliz de seguir naquilo que gosto. Resumindo, me subestimaram mas eu fui do jeito que acreditei. Ser humilde é essencial. Não é porque fui para Europa que vou esquecer quem eu fui ou quem eu sou. Sei que a humildade é para poucos, mas se eu não fosse humilde nem na esquina iria.

JB: O que a Deize Tigrona ainda não fez e tem vontade de fazer?

DT: Continuar no mundo artístico somando com as irmãs, pois a voz feminina precisa continuar ecoando no mercado fonográfico. Me mudar da comunidade porque hoje eu vejo necessidade... sinto que ainda tenho muita coisa pra fazer.︎





Jup do Bairro, 27 anos, paulistana, é cantora e multiartista. Em 2020 Jup lançou seu EP de estreia ‘’CORPO SEM JUÍZO’’ com participações de Linn da Quebrada e Rico Dalasam no single ‘’ALL YOU NEED IS LOVE’’, além de Mulambo e Deize Tigrona. 




Deize Tigrona, 42 anos, carioca, é uma das maiores cantoras e representantes do funk carioca liderado por mulheres negras.








Mark